2/09/2017

UMA CARTA PARA O AMIGO-PÁSSARO


Eu não sei o que você anda fazendo da vida, espero que esteja aproveitando cada pôr-do-sol e não desperdiçando nenhum deles por conta da correria que está instalada no caos dessa selva de pedras. E seja lá o que você esteja ouvindo, que nunca perca o gosto e o riso de ouvir músicas que quase ninguém escuta. 

Nem nos falamos mais. Cada um criou o seu próprio universo e alça voos por direções diferentes, isso é fantástico, você não acha? O que não significa que somos estranhos, ainda sei dos seus gostos. Passarinho bate asas e faz ninhos em lugares diferentes, liberdade é isso: amar. Ou seria o contrário? Eu continuo tendo o mesmo carinho por você, pode apostar.

Pensei em te escrever uma carta, mas as coisas andam tão agitadas que mal posso pegar numa caneta. Como andam as coisas por aí? Tenho feito planos, coloquei alguns no papel e outros guardei no meu coração. Espero que tudo se encaixe e dê certo, estou torcendo e orando por isso. Quais são as suas metas? Posso te ajudar a realizar alguma? O que você comeu hoje?

"'Aonde fica a saída?', perguntou Alice ao gato que ria.
'Depende', respondeu o gato.
'De quê?', replicou Alice;
'Depende de para onde você quer ir...'"
(Lewis Carroll - Alice no País das Maravilhas)

Desenvolvi uma teoria muito boa e eu acho que as pessoas deveriam respeitá-la também: não existe ex-amigo, existe amigo-pássaro. Amigo que passa pela vida da gente, voando devagarinho, mostrando que os medos podem ser encarados de frente quando a gente bate uma asa de cada vez e não olha para o que está abaixo do que nos faz respirar mais rápido. Que o céu só é visto por quem arrisca olhar para cima. Amigo é bicho solto, pode ir e vir quando quiser. E se quiser ficar, também faz bem. Ex-amigo é palavra mal-amada. Se foi, é porque um dia veio. E se veio, agregou, fez a sua parte e voou. 

Eu nunca gostei de gaiolas, portas fechadas me roubam o ar.


Amigo-pássaro pode ser quem não mantém mais contato, mas que nos fez crescer e experimentar coisas novas que fizeram parte do nosso amadurecimento. É quem a gente não troca mais mensagem por WhatsApp, não liga para ficar conversando por horas e não divide pipoca no cinema. É quem nos fez chorar de rir, entender a razão da Guerra do Golfo e a pronunciar uma palavra em inglês que a gente teimava em trocar uma letra por outra. É quem foi, mas deixou um pedaço dentro da gente. Assim: em abundância.

Você acha que eu estou ficando biruta com toda essa teoria? Quero acreditar que não.

Quando você vem passear na Bahia? A água de coco daqui continua docinha e a areia está a cada dia mais branca. Cigarras cantam no fim de tarde dos dias de verão, você precisa ouvir o som que elas fazem. Traga roupas de banho, elas precisam tomar sol e perder o cheiro de canto de armário. 

Eu te falei que comprei um ukulelê? Pois é, já sei tocar cinco músicas e uma delas é Ukulele Lady, do Bing Crosby, o que é estupidamente engraçado, sempre lembro do Popeye, sem motivo nenhum. Se isso fizesse sentido, não viria de mim.

Ó, a gente pode marcar de beber suco de cajá juntos e comer crepe do carrinho cor de limão. Colocar o papo em dia, ou só comer e não falar nada, apreciar a companhia. Mas se não quiser, não tem problema. Come daí que eu como de cá. A gente está debaixo do mesmo céu, mesmo que tenhamos universos diferentes e isso já é um encontro fantástico. Sempre vou soprar um pouco da poeira estelar que invade a minha mesa, espero que ela chegue aí e se instale no seu céu. Faça o mesmo. Podemos brilhar juntos em diferentes meios.

Dê sempre o seu melhor e se supere todos os dias. Vou estar torcendo para que você alce voos mais altos, ria dos pequenos tombos (eles fazem parte) e  levante sempre a cabeça com a mesma leveza do beijo de uma abelha na flor. 

Pra fim de conversa, sinta o meu melhor abraço. Seja feliz. Feliz.

Malena Flores

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