5/31/2016

FLORES


Trago todas as flores do mundo comigo, desde que nasci, ou antes disso. Painho resolveu que meu nome seria Malena Flores. Não Malena Rosa, Malena Margarida, Malena Tulipa, Malena Cravo, Malena Jasmim ou Malena Flox... Nada nisso. Ele arrematou todas as flores, fez um buquê e registrou. É mais que botânico. É artístico e poético também.

Não costumo fazer publicações pessoais aqui. Você não encontrará uma foto sequer de mim neste blog ou qualquer outra informação além do que considero importante compartilhar. Este não é um post narcisista, te asseguro. Pode adentrar sem medo.

Às vezes, me sinto uma flor de cacto. Daquelas que nascem no lugar mais improvável e dolorido possível. Mas, tem vezes, que eu me sinto um Dente de Leão que voa lentamente por aí, sem pressa de chegar, como quem tem certeza que o pouso será numa nuvem. Sou pólen, folha, caule e raiz. Murcho e desabrocho. Desabrocho e logo murcho. Seco e me desfaço.

Tem dias, que algumas pessoas arrancam minhas pétalas, me puxam de onde fui plantada e me lançam no chão. Me desfaço, encolho, cicatrizes são formadas e eu desapareço. Todo dia, tendo me levantar e tomar sol.

Lágrimas de gotas da aquarela que usei na noite passada se formam e elas pingam na terra seca. Minha caixa de giz de cera não funciona e meus papeis acabaram. Então, começo a pintar folhagens em mim.

"Teardrops and ink drops
Fall on the neat floor
Forget all this, let's paint our feet..."


Todos os dias, tento, de todas as formas possíveis, me balançar sem pensar no vento e soltar poucos polens por aí. Imperceptíveis, mas eu tento. Os espinhos que vieram comigo me machucam e me fazem sangrar. Mas eu me balanço lentamente. Len-ta-men-te. Devagar. E o sangue é estancado numa prece.

"Dream drops and fear drops
Raining at our door,
Let's lock it up, and let it go..."


Entendo que preciso me renovar, perder para ganhar. Mas é que o processo da poda dói e nem sempre as pessoas têm tempo para perceber e respeitar. Elas estão sempre muito agitadas e com pressa para realizar as coisas delas. Pela agitação que fica girando como um catavento na mente de tanta gente, acreditam que todas as flores constroem uma redoma de vidro para a autoproteção, conforto e medo do perigo.

A gente vive exposto diante de tantos males e o pior deles é o mal de não ser visto, sentido, entendido. Mas que mal isso tem para quem já desabrochou e murchou tantas vezes, não é verdade? Eu sou um jardim em construção, desculpa o transtorno, os espinhos e as abelhas.

Você também é uma flor? Vem aqui, você não está sozinho neste vasto chão.

"Lonely, no you'll never be lonely again
Cause you have me now."



O tema do Projeto Ilustra deste mês foi Flores. A ilustração de hoje me ocorreu enquanto ouvia Lonely, da Mallu Magalhães. Me deixei fluir na letra e ela me acompanhou no desenvolvimento. Ultimamente, tenho pensado menos no resultado final e me preocupado mais em me divertir com o processo. Esqueço o tempo e não fico me cobrando se vai demorar ou não. Se não der para acabar hoje, termino numa outra hora. Não quero tornar isso mecanizado. Tô me respeitando.

Fiz uso desta foto do Pinterest que achei de uma sensibilidade sem tamanho. Não resisti, dei pin e me serviu de referência. 

Esta é uma publicação colaborativa para o Projeto Ilustra. Para acompanhar o post de todas as ilustradoras que estão participando é só clicar no nome correspondente a cada uma delas: Yasmin Barroso, Camila Nogueira, Lidiane Dutra, Ana Blue e Mary Cagnin.


Malena Flores

Nenhum comentário

Postar um comentário

© Temporada das Flores
Maira Gall