11/04/2014

FÉ NÃO É A RESPOSTA, MAS A PERGUNTA.



“Fale, Memória.” É assim que começa A Odisséia de Homero. O poema épico que narra a história do guerreiro Odisseu que busca retornar para seu lar em Íthaca após a batalha de Tróia. A jornada, porém, leva tempo; décadas, já que é constantemente inviabilizada pelo complexo panteão de deuses gregos e suas crises internas.

Fale, memória.

Deixar a memória falar é um risco. Quando a memória fala a realidade atual é interpretada pelos seus inúmeros precedentes. O certo e seguro se torna incerto e inseguro. A memória tem essa habilidade, de fazer instável o estável, de abalar as estruturas aparentemente sólidas do pensamento negligente da reflexão que ouve sua voz. O livro de Eclesiastes alude ao potencial da memória: “o que foi é o que há de ser.” Para entender o que está por vir, é necessário olhar para trás. Se fazer vulnerável para o que a memória, a filha do passado, tem a dizer, assim…

Fale, memória!

De tudo que a memória pode falar para iluminar nossa jornada, que, diferentemente da jornada de Odisseu, é às vezes impossibilitada por um panteão diferente de deuses, comecemos pelo começo. Comecemos retirando um dos tijolos mais antigos na nossa superficial estrutura teológica cotidiana. Hoje é comum ouvir e falar a respeito de Jesus. Jesus está aqui, Jesus está lá, Jesus está em mim… sendo que uma das verdades bíblicas mais significativas, mais desafiadoras e mais esquecidas atualmente é: Jesus se foi.

Fale, memória?

O livro de Atos afirma que Jesus “foi elevado às alturas” (Atos 1:9) e que voltaria “da mesma forma” (Atos 1:11). Jesus disse antes de sua morte para os fariseus: “para onde eu vou, não podeis vir” (João 8:21), e para os discípulos: “para onde eu vou não podes agora seguir-me” (João 13:36). A sequência de João 13:36 até João 17 pode ser vista como um agrupamento de orientações sobre como viver sem a presença física ou direta de Jesus. E com a exceção dos Evangelhos que narram a vida de Jesus, a Bíblia, como um todo, pode ser vista por esta ótica: um manual de como viver na ausência de DEUS, e depois, de Jesus. Desde o primeiro exílio do Jardim (Gênesis 3:23-24) até nosso exílio atual… ausência.

Quando a memória fala, a realidade atual muda. O conforto criado pelo que é dito se torna o desconforto criado pelo que foi dito. Jesus se foi, mas deixou a promessa da vinda de um Consolador: “Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador” (João 14:16). A articulação da fé em nossos dias precisa inevitavelmente lidar com este fato: Jesus se foi. E agora? Fé não é a resposta, mas a pergunta.

Fale, memória.


Anderson Moura

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